domingo, 22 de outubro de 2006

"Volto a pensar em ti.
E por um momento, por motivo nenhum, tenho esperança. Acredito: estaremos juntos. Um dia, qualquer dia.

(...)
Não tenho coragem de o encarar mas sei que olha em frente: vendo nada. Imagino que recordará: a sua colecção de momentos e sensações, uma compilação de felicidades, o seu best of. Talvez passe a viver do passado, no passado; reproduzindo na sua mente a cassete que agora compila, ordena, perfeiçoa. Play; replay. Por um momento, desvio o olhar e espreito as suas mãos, pousadas sobre as pernas. (...) mãos repletas de vida: como se as experiências e as sensações aí se fossem acumulando, camada após camada; como se lentamente tudo se fosse dirigindo e concentrando nas mãos; como se aí residisse o fulcro do que é a vida, foi a vida. A mão que diz ao cérebro: o que eu sinto tu não saboreias.

(...)

Por vezes, também penso que é suficiente amar-te, que a concretização (ou até a correspondência) desse amor apenas corromperia a perfeição do sentimento que me une a ti. Por vezes, penso: amar é ma forma de ser amado.
E consigo suportar o teu silêncio. Por vezes.

A esperança é o mais inconsequente e fútil dos sentimentos; ou o mais abnegado e sublime?
Diz-me tu."


[Paulo Kellerman, 'Gastar Palavras -estórias-']



sábado, 7 de outubro de 2006

hoje vi o mundo desfocado.

as pessoas como espectros difusos, dissolvidas em sombras, almas deambulantes sem rosto ou forma concreta, nem meros obstáculos a contornar, não pisar, não esbarrar, por ser apenas eu -eu corpo inquietado, emocinal, confuso, eu rosto cinzento, carregado, distante e presente, eu egoísta. e as pessoas somente geradores de ruído, presença-ausência ignorada, desprezada; as pessoas fantasmas, matéria ocupante, pedras animizadas...
até mesmo o sol incomodou, a claridade, o calor... as cores, as texturas, os sabores... e o barulho das pessoas, a seu estar sem raiz, a sua passagem constante, e o barulho,

o barulho!...


Shh!...



o barulho.



Desfocou.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

(O meu gato anda a evitar chocolates. Está de dieta.)

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Há dias em que não quero olhar o mundo: entristece, repugna, revolta.
Há dias em que não ponho os óculos ou as lentes de contacto. São os dias em que não quero ver: deprime, enoja, enraivece.
Nos dias em que não olho porque não ponho os óculos ou as lentes para não ver, sou cinzenta e desligada e pequena e suja e fraca e enterrada... e... vazia. Penso que assim sou (mais) invisível, (mais) despercebida, (mais) menos daqui - é aliviante não pertencer a isto; é pesado ser tão leve de tão oca.
Há dias em que não olho porque não ponho os óculos ou as lentes para não ver:
Não sinto.
Não sonho.
Não sou...

domingo, 20 de agosto de 2006


"08h53
Por vezes, julgo-me especial. Penso: sou especial. E acredito.
Nada de extraordinário, essa especialidade. É apenas uma consciência não muito racional que por vezes vem e se insinua,
murmura junto ao ouvido: tens, em ti, lá dentro, lá fundo, algo para dar. Algo que até pode ser muito. Mas algo, para oferecer. Quero dar, sinto que posso dar. Nem sei o quê, na verdade não importa muito. Poderá ser apenas companhia ou compreensão ou carinho ou amor. Mas quero tanto dar. Provocar sorrisos. Ou até recolher lágrimas (as lágrimas são sempre pedaços de alma, provas de libertação, de entrega, de confiança; rastos de amor. Gostaria de andar pelo mundo e provocar choro; então, recolheria as lágrimas, e com elas formaria um oceano, um novo oceano. E esse ocenao, contituído por pedacitos das almas de todos os homens, formaria uma alma gigantesca, que seria a alma do mundo; que seria, em simultâneo, de todos e todos.)
É isso que penso, que desejo: apetece-me dar; e sinto que posso. Depois, olho em redor, pergunto-me: mas quem receberá? (Novamente: uma cortina.) Muitas vezes, sinto-me pateta: como se fosse um daqueles loucos que percorrem as ruas das cidades com tabuletas penduradas ao peito, anunciando o fim do mundo; a minha tabuleta diria: dá-se amor. E andaria pelas cidades, exibindo-a, esfregando-a nos olhos de quem passasse. Para nada; porque ninguém diria: dá-me amor, que eu preciso.
E então, penso: não, não sou especial. E acredito."



[Paulo Kellerman, 'Gastar Palavras -estórias-']